segunda-feira, 8 de junho de 2015

A felicidade custa pouco.

Feliz com 1 Real!!!
É segunda e eu preciso pagar contas. Penso nisso assim que abro os olhos. A sequência é a seguinte: café, escovar os dentes, vestir a roupa mais confortável possível (de preferência velha e com cara de pijama), prender o cabelo e rumar para o mercado. Lá há uma lotérica num espaço isolado. A fila dos aposentados apostadores da loto é grande em qualquer dia da semana, mas chega a ser incalculável na semana que recebem a aposentadoria.- esse é um fato intrigante aliás, um dia debaterei sobre o tema: serei uma velhinha apostadora ou ranzinza e existencialista?- enfim, a fila... Aliás, esta está no top 3 das razões pelas quais deixei SÃo Paulo com muito prazer. Lá o prazer por fila é maior que o prazer em si por qualquer outra atividade. Nunca entendi, mas ouvi relatos de muitas pessoas que conheceram um grande amor numa grande fila. E lá, você que não mora em SP, eu te garanto: as pessoas acham agradável, prazeroso e se sentem mais importantes quando a espera (tempo de ver e ser visto) ultrapassa a margem dos 45 minutos. Haja pose, caras e bocas. As trocas de olhares são infinitas e geralmente bailam entre o interesse e a competitividade: melhor sapato, melhor bolsa, enfim é o momento ápice da grande ode à ostentação que me foge à compreensão. - mas, agora de verdade: voltemos à fila da lotérica, nada glamourosa ou ostensiva, do meu querido Campeche, bairro onde no passado aterrissou um mero aviador que servia aos correios franceses, Antoine de Saint-Exupéry, um fulano aí que escreveu um livro chamado 'O Pequeno Príncipe'. Observo a sala cheia e retiro a minha senha: 576. No painel iluminado que avisa quem será o próximo felizardo a se livrar daquele aglomero eu confiro a minha sentença: 478.
Longe, muito longe das minhas expectativas de voltar rápido para casa. Penso em alternativas e lembro da fila que beirava a rua da pequena agência do Banco do Brasil próxima ao mercado. na hora eu ri num misto de pena e soberbia. Eu tinha certeza que não passaria por aquilo hoje.E estava parcialmente certa, mas apesar do conforto a espera não seria menor. Então, ruim de matemática que sou, eu calculei quarenta minutos de molho. Como eu não gosto de perder tempo eu decidi ocupá-lo com compras e... uma cervejinha, claro!

Passeei pelo mercado entre devaneios e planos e abasteci meu estoque de vegetais. Ao passar pelo caixa de dez volumes eu ouço como sempre um animado "Bom dia!". respondo com o mesmo entusiasmo e lhe entrego meu cartão:

- Crédito ou débito? - a moça me pergunta tranquilamente.
Respondo que tanto faz e ela decide por crédito e me pede um documento:

- Pode tirar os óculos por favor? - eu acato o pedido.- Nossa! Eu não te daria mais de vinte e seis anos. Qual é o segredo?

Envaideço-me, embora um tanto constrangida (não sei lidar com elogios):
- Comer bem, praticar exercícios, beber muita água e balancear tudo com quantidades excessivas de álcool. Prefiro vinho, mas hoje vai bem uma cerveja.

Ela ri um pouco intimidada, porém muito amistosa:
- Vou anotar isso: álcool. Tenha um bom dia!

Desejo à ela um bom dia também e vou para a sala do meu destino final, o painel mudou muito: 568. Oito cabeças a mais e eu estava pronta para ir embora. Relaxei e continuei bebendo a minha cerveja geladíssima num calor de 27 graus. - e isso para mim já é o inferno na terra. Odeio calor. Mas, o que isso importa quando a sorte está a seu lado, certo? Algumas pessoas foram embora e em dois números eu seria a próxima. Perfeito, agora era só acabar a cerveja e conferir a conta que fui pagar, o dinheiro estava certo? E foi aí que o calor foi embora dando lugar a um frio que me gelou os ossos: faltavam 75 centavos e uma pessoa antes de mim.
Tentei não entrar em pânico ou me odiar pela minha eterna falta de atenção que já me fez perder vôos e pagar duas vezes a mesma passagem, só para citar um exemplo do que é viver e não aprender nunca. Mas, com o tempo e as sucessões de mancadas auto-infringidas eu também aprendi a relaxar e retomar do ponto de partida. Eu voltaria para casa, pegaria os tais centavos e encararia tudo de novo e fim de conversa, sem lamentos. É preciso se aceitar para viver em paz, nunca se esqueça disso!
Enfim, não restando mais o que fazer, levantei-me e fui até o fim da fila e ofereci a minha senha ao rapaz de número 791, disse que ele seria o próximo e lhe expliquei rapidamente o porquê estava passando o lugar. E qual a minha surpresa quando ouvi:
- Mas, não seja por isso! Eu não estou com pressa - e me deu uma moeda de um real.
Incrédula eu perguntei se ele tinha certeza, ele não titubeou. Sim, estava me dando um real que mudaria o meu destino.

E naquele naquele momento eu fui a pessoa mais feliz do mundo.


--------------------------------------------------------------------------------------------------
PS: ao pagar a conta a moça da lotérica me chamou de volta, disse que eu deveria pegar o meu troco. "Troco?". Sim, eu havia dando à ela dez reais a mais e não havia percebido. Voltei ao rapaz e devolvi a moeda e passei o meu telefone, é disso tipo de gente que eu quero ter na minha vida: no fim da fila, em vez de aceitar a oportunidade de ultrapassar a todos à sua frente preferiu ajudar à uma estranha.

A felicidade definitivamente custa pouco, mas a generosidade é de valor inestimável.