quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Até que a verdade nos separe

Era um belo casal. Belo no sentido moral da coisa, todos que deles sabiam não encontravam outra definição para descrevê-los. Estavam juntos há mais de quinze anos e não tiveram filhos, talvez pela atribulada vida social que gostavam de manter. Os amigos eram muitos, e a maioria parecia ter saído de algum conto fantástico. Sob controle, gostavam de usar drogas recreativas a título de expandir a mente, descobrir novos pontos de vista sobre uma mesma perspectiva. Também liam muitos livros sobre arte e espiritualidade e gostavam de viajar.

Era conhecido e ovacionado os seus conhecimentos sobre as leis do karma, especialmente da esposa. Essa não deixava dúvidas do seu grau de sabedoria nesse quesito. Por exemplo, o que nos acontece é porque atraímos, ou mesmo estamos apenas acertando as contas com o universo. Se não provocamos nossas catástorfes nessa vida, então foi na vida passada. Logo a compaixão é dispensável. Cada um deve lidar com o seu fardo sozinho. - embora isso pudesse gerar alguns questionamentos, isto em nada, ou quase, interferia no saldo de simpatia final. 

Room in New York ,1932 (Edward Hopper)
Era verdadeiramente agradável estar na presença inimitável daquela dupla que contrastava tanto com a realidade matrimonial, que tinha senso de humor, cultura e olhos e ouvidos livres de preconceitos como assim se definiam. Sua filosofia de vida era agregar experiências e com isto conhecer-se melhor. E pelo quadro apresentado, não se podia negar que até ali funcionou.  Inclusive a decoração da casa provava que junções inusitadas poderiam conviver em total harmonia: olho grego na entrada com uma figura da mitologia maia logo abaixo. Dentro da casa não era diferente, cristais mágicos, apanhador de sonhos, incensos, Preto Véio, Ganesh, Nossa Senhora, Buda, Lacan, Et Bilú, e segue a infinidade de referências míticas e teosóficas. E, ao contrário do que a sua mente possa lhe sugerir, era um ambiente de bom gosto visual indiscutível, pois ambos souberam harmonizar cores e disposições a fim de que tudo fosse visto, questionado e apreciado. Impossível sair daquela casa sem comentá-la.


Ambos eram afeitos ao amor e a verdade acima de tudo, dentro e fora do relacionamento já que estavam testando incluir novos integrantes à vida conjugal já em fase de desgaste natural.
De comum acordo decidiram por viajar separados pela primeira vez, precisavam de um retiro espiritual, pois sentiam que estavam entrando em sérios conflitos ideológicos. Ele faria um retiro espiritual no deserto do Atacama, no Chile, e ela iria para o Mato Grosso numa comunidade científico-religiosa denominada Nova Ordem que adorava extra-terrestres e profetizava grandes catástrofes climáticas e políticas. Na volta conversariam sobre suas novas descobertas, e com energias renovadas voltariam a tratar do casamento.
No entanto, a volta foi pior que a partida, pois descobriram que estavam em irreparável desencontro espiritual: ela veio com novas premonições catastróficas e ele fez chacota. Ela chorou doída pelo desrespeito daquele novo ser que havia se juntado ao Arco-íris do Amor, uma seita que não previa catástrofes, apenas espalhava o amor. E por isso todos tinham filhos com todos, não importando o grau de parentesco.  Aquilo a repugnou, pois assim ele não seria um dos escolhidos para subir na nave espacial que os salvaria do fim do mundo. Ele quis saber por que, e ela explicou que na nave só entraria casais que realmente se amavam, e o que ele queria não tinha nada a ver com amor, e sim com “inversão de valores”. E que a religião dele era só uma desculpa para pervertidos fazerem sexo sem culpa. Aquilo o revoltou, onde já se viu uma pessoa inteligente dizer que é preciso sentir culpa no sexo!? Aquela mulher pudica e louca que estava à sua frente em nada lembrava a amante da liberdade com a qual ele se casou, e se soubesse que seria assim também não teria casado confessou.
Ser chamada de pudica e louca depois de aceitar um relacionamento aberto e transar com todo um circo itinerante da noite paulistana só para agradá-lo já era demais. Embora tivesse gozado algumas vezes, na maioria era como se nenhum banho limpasse a sujeira que ficava depois. Em algumas vezes que misturou sexo, drogas e música indiana, até teve síndrome do pânico! Mas, quanto aos ataques de pânico ele fez questão de se isentar, pois ela passou a ter crises depois que passou a fazer regressão com os charlatões da Nova Ordem. Esse foi o estopim: chama-los de charlatões foi um caminho sem volta. E convictos do fim inevitável, separaram-se.


E sabe como é, numa separação os amigos mais próximos nunca ficam indiferentes, especialmente quando acabam envolvidos. A verdade os separou, por que a verdade dela não era a mesma que a dele, e vice-versa. Os amigos foram postos contra a parede, pois ambos exigiram uma posição acreditando cegamente no seu carisma invencível.
E na verdade ninguém estava interessado na verdade do ex-casal. Que pena para os valores. Que pena para a fé, pensaram eles tomados do mesmo rancor, já em lados opostos. Cada um com o seu karma.


Quanto aos amigos? Seguiram suas vidas, conheceram outras pessoas interessantes que também tinham coisas a dizer...

sábado, 16 de agosto de 2014

Você não é tão jovem quanto quer aparentar...

(A frase acima é do filme O Inquilino, do Roman Polanski, que nada tem a ver com esse texto. Há!)

Eu não prestava muita atenção no comportamento das pessoas mais velhas quando ainda estava na fase de
Evalyn Knapp, jovem e musa do cinema dos 20/30's...
viver meus anos pré-balzaquianos. Não que esteja velha (oops), mas cheguei aos trinta e comecei a prestar atenção em mim, e nas pessoas da minha geração. Nos mais velhos também por que agora eu me desesperei por referências. E, só eu sei o quanto isso soa ridículo. Por que é ridículo ter medo do que não se pode evitar.
Mas, ele veio. O medo de envelhecer (mal), de ter que me despedir da beleza para me preocupar com a saúde. Bateu a dor na consciência pelos anos de exageros químicos, também algum alívio quando lembro que sempre fui paranoica com o que botava no prato, e nunca deixei de me exercitar nem que fosse uma caminhada simples. Porém, isso não é o suficiente, ainda vou envelhecer igual a todo mundo que envelheceu, igual a Sophia Loren, a Brigitte Bardot... - e foi assim, perdida num pânico-etário que acordei pra realidade, apego é autossabotagem. Então deixei de lado esse amor pelos meus vinte anos, e finalmente me entreguei aos trinta. Percebi que ser eternamente jovem daria muito trabalho, de procedimentos estéticos à atualização de gírias.

Vejo muita gente perdendo a noção do tempo, literalmente. Chega a ser um Stand Up de clichés. Primeiro começam a se ofender quando alguém da mesma idade comenta que já está velho para certas coisas, tipo ficar na balada a semana inteira, vestir rosa dos pés à cabeça, ou sair pra 'pegar geral'. Aliás,quem ainda fala 'pegar geral' já se denuncia sozinho. E não pára por aí. De repente a pessoa começa a se relacionar apenas com pessoas mais novas, e diz que as pessoas da mesma idade não acompanham o seu "pique", o que indiretamente quer dizer "eu ainda sou jovem, apesar da idade". Tanto o homem quanto a mulher, ambos entram numa fase de autoafirmação engraçada, pois passam a PRECISAR de pessoas mais jovens, e às vezes jovens demais mesmo (...). É uma mentirinha boba que contam pra si mesmos sem grandes consequências (com algumas também), e um dia acordam com um estrago bem maior do que a ressaca que depois dos trinta passa a durar dois, três dias: o arrombo interior. Então percebe-se que o corpo envelhece mesmo que você use o jeans mais justo, ouça rock todos os dias, e beba como se tivesse começado ontem. Essas mudanças, físicas e psicológicas, aparecem mesmo que você jure que a idade está na cabeça.
Aliás, quando alguém me diz isso eu aconselho a rever fotos. Elas são as melhores provas de que você pode estar certo, ou errado.

É óbvio que eu não quero dizer pra ninguém ler isso e procurar uma ponte com a fila menor para se jogar mais rápido e acabar com esse fracasso biológico. Mas, ao contrário. Envelhecer tem suas vantagens e desvantagens, tanto quanto ser jovem. Por exemplo, não fosse a chegada dos meus trintinhas, provavelmente eu estaria desafiando meu fígado em São Paulo até agora, ganhando o suficiente pra comer, chapar e pagar o aluguel. A idade iluminou meu caminho (tá, essa frase ficou bíblica, até lembrou minha mãe, haha!): as prioridades mudaram. Em vez de junkie artist dos bares, hoje eu me dedico a realizar os meus sonhos com mais paciência e perseverança do que antes. E dentre eles o de fazer uma ideia (muitas!) render. Ganhar dinheiro é a maior arte de todas. Experimente começar do zero!
E vou além, experimente seguir em frente já que para trás é um sonho que "mesmo que sonhado em conjunto" jamais irá se concretizar.

Não quero dar lição de moral, até porque tenho horror a essa palavra, mas o que eu quero esclarecer aqui é que dá pra envelhecer com dignidade. Digo, aproveitando plenamente a idade que se tem, e descobrindo com ela novos prazeres. Por exemplo um bom vinho, coisa que a gente só aprende a apreciar com o tempo mesmo, e depois se pergunta porque não trocou todas as misturebas medonhas que já fez por uma taça de um bom Merlot, ou várias como no meu caso.




Moral da história:
Forever young é só uma música...

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Opinião, quer mesmo?



Almada Negreiros, Auto-retrato com o grupo da Brasileira, 1925

Nunca peço opinião sobre o que eu faço. Eu fiz tá feito. Se eu expus foi por que eu gostei, e está bem que eu seja a primeira pessoa a gostar do que fiz, afinal de nada me serve a opinião alheia me lambuzando de elogios se eu continuo me reprovando.  Esse é o tipo de sentimento agridoce que já experimentei muitas vezes, e só reforçou a minha conduta de não ceder às tentações da bajulação.
Porém, há pessoas que só aceitam a si mesmas depois da aceitação pública. E, esse tipo de pessoa sempre me mete em saias justíssimas, do tipo que me paralisa as pernas.  Eu minto o meu melhor, afinal de que valeria a vida sem amigos?

Mas, às vezes sinto que a convivência seria mais fácil se as pessoas não pedissem minha opinião, especialmente quando se trata de arte, coisa que para mim dispensa qualquer pergunta. A arte fala por si só, e a resposta vem no encalço. Sinceramente não acho que alguém seja juiz supremo no ofício de julgar a arte alheia. Há coisas que me deixam maravilhada, e há coisas que não me dizem nada, e isso é extremamente particular. E, o que não me diz nada, por ex. Romero Brito, diz tudo para muita gente. E, vai que num começo de carreira ele tivesse me encontrado e me perguntando sobre o que eu achava daquele monte de cubinhos, pós-cubismo, coloridos de maneira infantil? Minha resposta seria “na sua idade eu tentaria algo mais profundo”. Digamos que ele tivesse acatado meu conselho como veredicto, e passasse a buscar a tal profundidade da qual falei sem nunca encontra-la? Hoje ele seria pobre e frustrado, por minha culpa.

Eu não sei o que é bom, ou certo, para os outros, só sei que tem gosto pra tudo. E detesto me sentir coagida a elogiar pelo simples fato de que ninguém pede crítica. Me sinto quase ofendida por isso, por que sei que a amizade entra nesse contexto, e disto ela pode sair fortalecida, ou abalada. Até mesmo acabar, coisa que já me aconteceu.

Recentemente o que eu mais temia me aconteceu: uma pessoa resolveu pedir minha opinião sobre suas músicas recentes. A minha vontade é a de dizer “não mostre isso nem a um surdo!”, e completar com “tu deveria se ouvir mais pra lembrar da sensação de fazer algo que presta”, porém não é assim que a coisa funciona, e eu hei de me agarrar a uma qualidade qualquer e garantir-lhe mais uma boa noite de sono.  – o irônico disso é que eu lhe dei um exemplar do meu último livro quase sob juramento de que ele jamais faria comigo qualquer comentário a respeito da obra. Nem crítica, nem elogio. Pois, nada mudaria o fato de que aquilo já era algo consumado, e a opinião dele em nada acrescentaria.
Ah, se ele tivesse entendido!

domingo, 16 de junho de 2013

Se baixar o preço da passagem baixar a tua indignação acaba?



Ontem eu decidi me interessar pela opinião das pessoas e dei aquela passada geral, li post por post, até opinei (logo me arrependi), e concluí que continuo incerta a respeito do quanto o preço da passagem me afeta.  Comentei também que a gente não deveria ficar nessa de “luta” SÓ pelo preço da passagem, e concordo que não devemos desprezar o engajamento burguês daqueles que têm carro e não usariam um ônibus nem que lhe pagassem a passagem, mas estão nas ruas do lado dos menos favorecidos.

As grandes revoluções começaram por intelectuais da classe alta, artistas, pensadores, burgueses, inventores. Che Guevara é um grande exemplo disso. Enfim, a classe mais favorecida se posicionou, pela aventura ou pela ingenuidade idealística, mas arregaçou as mangas, discordou do governo limítrofe, e foi à baila dando o seu bem maior, a vida, por uma causa, tal qual Gerda Taro e tantos outros espírtos inquietos.
E há muito que não se via, ao menos no Brasil, esse desejo passional por mudanças. Fico mais feliz, e agradecida, pelo fato de que a minha timeline não está mais poluída por fotos babacas do que comeram, do que vestiram ou como estão gastando seu pseudo-rico dinheirinho à beira de piscinas, mas trocaram suas futilidades por matérias relacionadas às manifestações e por discussões menos superficiais. Porém, um fantasma me assombra: será isso o hype do momento, ou as pessoas estão mesmo sentindo que é hora de acordar, de ser menos passivas em relação às decisões superiores que nos afetam diretamente onde mais dói, o bolso? 


Digo isso por puro ceticismo, por não acreditar em engajamento de Facebook, essa vitrine onde as pessoas querem mostrar uma imagem que geralmente não condiz com suas verdades mais íntimas.
Porém, pra mim o buraco é mais embaixo. Eu gostaria que o brasileiro se revoltasse por pagar tão caro por tudo que precisa, ou deseja, enquanto recebe um salário tão inferior aos seus anseios. O governo incentiva a desigualdade social, e o melhor exemplo disso é a nova classe média e suas ostentações clássicas de emergente. O brasileiro de classe média é o pior, em minha opinião, por que é alienado, ostensivo e consumidor imediato de cultura de massas. Se num momento ele está contando vantagem por um produto importado que acabou de pagar três mil reais, no segundo seguinte ele está tomado pela paixão do momento e vomita discursos terceirizados sobre igualdade de direitos, preços justos e respeito ao próximo. Esse cidadão é o mesmo que dá carteirada em porta de balada dizendo que TEM DINHEIRO para estar ali e quer que os funcionários locais se comportem como empregados particulares dele, que o bajulem e que aguentem suas piadinhas infames.

Lembrei-me também do meu idealismo estudantil nos anos 90, época que cheguei ao Brasil e que logo depois eu pude presenciar um momento histórico, o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Juntos dos meus, eu criei o primeiro Grêmio Estudantil da minha escola, comecei como diretora cultural e terminei como presidente. Eu era ativa e ativista. A gente protestava por tudo, era uma sensação de que nós fazíamos a diferença enquanto os adultos já haviam estacionado o cérebro.  Eu acreditava no futuro da nação através da educação. E, fui feliz na minha ingenuidade por muito tempo. Tive bons professores também, e sempre estudei em escola pública. No Paraná, repito isso era possível. Acho que peguei a última fase respeitável do idealismo paranaense, do desejo de mudança com consistência e não objetivos aleatórios que para cada protestante representava uma causa distinta a que estava proposta como tema.  E pensei do fundo do meu desencanto com o Brasil, que eu me acovardei com os demais covardes, e calei-me há muito tempo. Minha última tentativa foi a Marcha das Vadias, que por um lado me enche de alegria ao ver que as mulheres continuam indo pras ruas exigir respeito por seus corpos e seus direitos humanos, mas por outro lado me amargou o fascismo feminista que me condenou, a mim e minha parceira, por que não éramos parte do grupo, mas ousamos chamar tamanha atenção. – alí morreu o resto do meu idealismo. Não luto mais por causa alguma que não represente meu egoísmo eremita. E só iria pras ruas o dia que o brasileiro se conscientizasse de que ele é roubado diariamente na sua dignidade. Não só na passagem do ônibus, mas na qualidade do transporte, na educação inacessível que finda tantos sonhos após o colegial, no imposto que ele não sabe exatamente pra onde vai nem pra que serve por que as ruas continuam perigosas, por que os menores assassinos continuam protegidos pela lei e soltos nas ruas, pois todo assassino sempre volta a matar se tiver a chance. Por que os presídios não oferecem programas de incentivo à cidadania, ao contrário, quem sai de lá já sabe que vai voltar ao crime por que não vê alternativa.

E a saúde no Brasil... O que é isso, exatamente, um decreto do governo de que quem recebe um salário mínimo não merece viver? Aí, eu me pergunto: o que mudaria na minha vida se esses vinte centavos fossem reduzidos da passagem? Comparado a essa desigualdade estratosférica, porém admitida, nada.  Desculpem-me a honestidade. Nada mesmo. Esse país precisa de um RESET urgente, e se a passagem for só o começo, eu choro de emoção, mas se ficar nisso eu penso seriamente em fazer o que já fiz antes, morar num  país mais desenvolvido. Abandonar a pátria que me acolheu aos nove anos, que tanto amei que me esforcei pra falar a sua língua, e não apenas isso, eu sempre gritei pela brasilidade, pela valorização do idioma, dos grandes nomes nacionais, da sua literatura, da sua história. Eu, paraguaia, amei esse país a contorcer-me o estômago e travar-me a garganta para sufocar o choro daquele que ama e não é correspondido.  Mas vai-se o tempo, e a ingenuidade foi morta a pauladas de realidade.

L’enchatement c’est mort. - ainda que amanhã eu estarei nas ruas também.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Paranoia, sempre ela.




Já foi. Mas, eu vou ficar aqui remoendo cada letra que formou aquela palavra que deve ter passado a impressão contrária à minha intenção, a mensagem errada.  A contradição!

(Copo vazio, Tamara de lempicka )
Em raros momentos de autoconsolo, eu reforço pensamentos em voz alta: deu tudo certo, mas o certo me parece errado. Não sei por que, também não sei por que não consigo me desligar do que já foi se já aconteceu e nada mais posso fazer pra mudar. Mas, aaaaaaaahhhhhhhh, como eu queria poder mudar, voltar no tempo, naquelas duas linhas que estragaram tudo. Mas, poder eu não tenho, especialmente sobre meu sangue quente. E naquele momento, aquelas palavras... O que ele esperava exatamente, depois de tudo?

Volto a pensar naquele e-mail, por que eu insisto em me sentir incrivelmente  lúcida quando bebo, por que eu escrevi aquilo tudo se duas linhas resumiriam o meu fracasso com alguma dignidade? Por que eu nunca resisto ao impulso da auto revelação?

Aquele maldito e-mail... Ele vai ficar passando na minha cabeça, palavra por palavra, e a cada passada eu vou encontrar uma falha nova. A brecha que dei e não pretendia se sóbria respondesse.  E quando eu estiver no meio dos amigos falando sobre política, sexo e cães da raça Schnauzer, eu também vou lembrar que não deveria ter escrito aquilo, não daquele jeito. Por semanas vou mastigar a comida com aquelas palavras, e na certa ignorada que receberei, esta será a lembrança que mais vai participar dnas minhas noites solitárias dos meses seguintes, afinal basta estar só para se ver na pior companhia. A paranoia, sempre ela. Nunca me deixou, e eu até deveria algum respeito a ela pelo companheirismo, mas daí entra as convenções. Gente paranoica não merece respeito de quem sabe disfarçar melhor seus fracassos, ou pelo menos aceitar sem tanta autocomiseração.

Mesmo assim eu sinto pena de mim por haver escrito aquele e-mail revelador do meu ego ferido, por o que coração já nem existia àquela altura, foi estraçalhado milhas atrás num choque fatal entre a fantasia e a realidade.

Agora vou continuar enrolando feixes de cabelo no dedo enquanto olho pro além, incansavelmente. Depois vou atrás de um trago, de estranhos dispostos a gostar de qualquer coisa que também pode ser eu, vou longe até me afastar de mim. Eu ando me chateando demais.


terça-feira, 4 de junho de 2013

Dividir a conta é um direito ou um dever?



– Tem diferença, vamos falar francamente sobre isso?
Fiz essa proposta a um rapaz que exigia, com deboche, que as suas conquistas dividissem as contas, e se vangloriava disso dizendo que não sustentava “vagabunda interesseira”. Chocada, eu quis saber “nem num primeiro encontro, tipo: tu chamas a guria pra sair por que acha ela gata e tá a fim de trepar com ela, e nem assim tu abre uma exceção, se mostra mais gentil? A resposta foi negativa. Duas amigas ao lado concordavam piamente, justificaram que as mulheres exigiram direitos iguais então deveriam arcar, com um sorriso estampado na cara, com os deveres também. Mas, onde uma conta de bar/restaurante/motel é um dever? É uma opção, não é? Especialmente por que se trata de um lazer ou um cortejo.
Eu entendo que as mulheres cansaram de ter suas contas pagas e ter de agir como aquisição do homem. Como opção, não é agradável. E hoje nós temos essa opção. E que bom! Eu sou independente e me orgulho disso, mas isso não diminui o papel do homem na hora do lazer: ele paga a conta sim! Ou não me come. – ao afirmar isso fui alertada de que agia como uma prostituta, pelo rapaz e pelas moças. Então retruquei: sua mãe, uma dona de casa que se dedicou apenas a família, era uma PROSTITUTA do seu pai? Ninguém concordou e se desdobraram em explicações que só esbarravam em clichés “eram outros tempos e minha mãe não foi prostituta, mais respeito com a MINHA família!”. Prostitutas também são mulheres, mas merecem menos respeito do que as outras? Sim, unanimemente. Essas, apesar de pagarem suas contas, de não venderem animais de estimação que nada recebem por isso, exceto um destino incerto, não merecem qualquer respeito mesmo quando seus serviços são requisitados. E no caso do jovem em questão, ele já saiu com prostitutas algumas vezes, só de “zueira” com os amigos.  Eu parei de argumentar, optei por beber e falar de amenidades.

Esse assunto sempre me intriga por que eu conheci muitas mulheres independentes, esclarecidas e inteligentes dividindo a conta com alguém que as chamaria de vagabunda interesseira, e capaz que as próprias concordariam com essa conduta bárbara. Eu me choco quando uma mulher diz que não pode  aceitar que um homem pague a totalidade da conta do restaurante, que lhe abra a porta do carro, e como eu já ouvi “não sou aleijada e que me abram a porta é uma verdadeira ofensa!”, ou quando dizem que flores ficam bem em cemitério. É como se odiassem o fato de serem tratadas com delicadeza, de serem mimadas e cortejadas com elegância, por que isso lhes soa aos ouvidos como as chaves de uma prisão da qual a pouco se libertaram. Os homens estão completamente perdidos, os bons eu digo, por que os maus souberam aproveitar bem as conquistas do feminismo. Veja bem, não estou falando mal do feminismo, eu nunca discuto religião! Mas, me sinto insultada na minha inteligência quando ouço um cara me dizer: direitos iguais, deveres iguais. E me sinto ultrajada quando ouço mulheres corroborando essa máxima da idiotice humana. Eu não sou igual aos homens, e não quero ser! Eu tenho uma BOCETA, duas TETAS e gasto mais do que um gel de barbear pra ficar à altura do que vocês HOMENS chamam de “gata, gostosa, comível”, e embora isso se encaixe na tal “Ditadura da Beleza”, eu diria que prefiro sorrir quando olho no espelho a pensar na roupa que vou usar pra parecer menos pior do que eu me sinto. Sou vaidosa, e isso não me diminui como mulher, não traduz minhas falhas ou conhecimentos.  E isso é o que toda mulher deveria levar em conta antes de concordar com algo que só tem vantagem pro homem desprovido de educação e bom senso.

Oras meninas, vamos contabilizar, nós gastamos muito pra ficar bonitas/apresentáveis diariamente. E isso tem que ser somado no lazer desses mocinhos que só querem se dar bem a baixo custo. Eles não usam salto alto, maquiagem, salão de beleza, depilação, roupas para o dia e roupas para a noite, lingeries especiais, unhas vermelhas... Mas, reparam na falta disso, nunca no trabalho que deu pra chegar impecável aquele encontro que ele marcou, mas que tu vai dividir a conta e ainda fazer o boquete do século antes de fazê-lo gozar não sei quantas vezes, e depois nem vai topar um cineminha quando tu tá carente na TPM, ou no dia dos namorados que você se sente ainda mais sozinha e só quer uma companhia  pra passar o tempo, e por que não ELE? Por que ele já arranjou outra pra dividir a conta e fazer o mesmo serviço. Tudo bem que você também se divertiu na foda, mas o saldo final não ficou favorável pra você, nem justamente dividido. Pense nisso antes de dividir a conta com o próximo PAU que quiser entrar em você.  Valorize o quanto você gasta antes de chegar à mesa deles.

*Adendo: estou falando abertamente de sexo sem compromisso, por tanto não vale argumentar que entre casais...blá blá blá, entre casais há um acordo e um conhecimento mais profundo do que um simples CORTEJO.